domingo, 18 de abril de 2010

Lembrança de uma fonte, de uma cidade.


Deixo, a seguir, um conto maravilhoso da maravilhosa e singular Clarice Lispector. Não tenho o que comentar. Às vezes, ela me deixa sem palavras.

Na Suíça, em Berna, eu morava na Gerechtigkeitsgasse, isto é, Rua da Justiça. Diante de minha casa, na rua, estava a estátua em cores, segurando a balança. Em torno, reis esmagados pedindo talvez uma exceção. No inverno, o pequeno lago no centro do qual estava a estátua, no inverno a água gelada, às vezes quebradiça de fino gelo. Na primavera gerânios vermelhos. As carolas debruçavam-se na água e, balança equilibrada, na água suas sombras vermelhas ressurgiam. Qual das duas imagens era em verdade o gerânio? Igual distância, perspectiva certa, silêncio da perfeição. E a rua ainda medieval: eu morava na parte antiga da cidade. O que me salvou da monotonia de Berna foi viver na Idade Média, foi esperar que a neve parasse e os gerânios vermelhos de novo se refletissem na água, foi ter um filho que lá nasceu, foi ter escrito um de meus livros menos gostados, A cidade sitiada, no entanto, relendo-o, pessoas passam a gostar dele; minha gratidão a este livro é enorme: o esforço de escrevê-lo me ocupava, salvava-me daquele silêncio aterrador das ruas de Berna, e quando terminei o último capítulo, fui para o hospital dar à luz o menino. Berna é uma cidade livre, por que então eu me sentia tão presa, tão segregada? Eu ia ao cinema todas as tardes, pouco importava o filme. E lembro-me de que às vezes, à saída do cinema, via que já começara a nevar. Naquela hora do crepúsculo, sozinha na cidade medieval, sob flocos ainda fracos de neve – nessa hora eu me sentia pior do que uma mendiga porque nem ao menos eu sabia o que pedir.

domingo, 11 de abril de 2010

Clarice por Drummond.


Neste mundo virtual, principalmente nos blogs, conseguimos encontrar grandes apreciadores de Literatura. Há pouco tempo, conheci o grande Thiago Cavalcante. Apreciador de Clarice, como eu, ele me enviou um trabalho da faculdade que havia um poema de Drummond que mostrava a visão do grande poeta sobre Clarice Lispector.

Não podemos negar o quanto Clarice era misteriosa. E suas obras sempre foram filosóficas e, de um modo muito profundo e particular, nos descrevem. Sim, Clarice tinha um dom único de saber como todos nós nos sentimos sobre a vida, relacionamentos e sobre nós mesmos.
Reflitam sobre o poema e vejam que nem Drummond consegue desvendar os mistérios dessa grande escritora.


Visão de Clarice Lispector

Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
Era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
Onde a palavra parece encontrar
Sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
Viveu por nós em forma de história
Em forma de sonho de história
(no meio havia uma barata ou um anjo?)
Não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
Que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi a lugar-comum,
Carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
Só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
Tentativas de Clarice sair de Clarice
Para ser igual a nós todos
Em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadaria,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em brumas envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
viva, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
Salpicado de compromissos. Os papéis,
Os cumprimentos falavam em agora,
Edições, possíveis coquetéis
À beira do abismo.

Levitando acima do abismo Clarice riscava
Um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreedê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice.


Carlos Drummond de Andrade




Comentário: Acho que o poema diz, por sí só, toda a emoção, talento e tudo que Clarice nos presenteou e nos abrilhantou ao longo da sua obra. Esse dia mais tarde, citado no poema, que seria o dia que amaremos Clarice, para mim, já chegou.

Drummond é fenomenal! Clarice o inexplicável!